Blogues & Tecnologia Educativa 06 Jul 2007 10:29 pm

A escrita poderosa

Colin Lankshear e Michele Knobel, num texto recentemente publicado em português – “Mundos Weblog e Construções de uma Escrita Eficiente e Poderosa: Atravessar com cuidado e apenas onde os sinais o permitam” (Lankshear & Knobel, 2006). – apresentam uma análise cuidada de uma das mais bem sucedidas ferramentas de expressão individual na web – o blogue – propondo estratégias interessantes e bem fundamentadas para a sua utilização bem sucedida em ambiente escolar.

Os autores fornecem vários contributos relevantes para a análise deste tema: estabelecem uma tipologia provisória extremamente completa e elucidativa dos diferentes tipos de blogues actualmente existentes; analisam características chave de blogues eficientes; procuram compreender as razões de ser das limitações verificadas na generalidade dos blogues escolares e apresentam sugestões concretas e pertinentes para uma sua utilização com maior êxito no contexto pedagógico.

Uma das perspectivas sobre o qual o tema é analisado reveste-se de especial interesse para a avaliação desta ferramenta enquanto potencial promotora da democraticidade da expressão: a dos blogues e a sua relação com o poder, ou, pelo menos, com a influência que podem conseguir exercer.

Lankshear e Knobel recorrem a um estudo realizado em 2003, de Clay Shirky, a partir da análise dos inbound links de 433 blogues, que chega à conclusão de que os blogues fazem eco das leis aplicáveis à matemática dos mercados e que, por consequência, um “pequeno subconjunto de fornecedores atrairá uma quantidade desproporcionadamente elevada das escolhas exercidas” (Lankshear & Knobel, 2006: 105). No caso da amostra em apreço, “os dois blogues que se encontram no topo eram responsáveis por 20% da totalidade de inbound links, e os 50 blogues situados no topo (ou apenas 12 por cento da totalidade da amostra) representavam 50% dos inbound links (Lankshear & Knobel, 2006: 104). Segundo Lankshear e Knoblel, Shirky conclui ainda que “quanto maior a diversidade de opções, mais acentuada é a curva” (Lankshear & Knobel, 2006: 105). A partir destes dados, os autores inferem que os blogues operam sob condições de mercado onde as leis do poder dependem de indicadores como “a atracção de muitos inbound links, de comentários por parte dos leitores, a conquista de muita atenção (como indicado pelo número de menções e posições ‘próximas-do-topo-da-lista’ em buscas feitas a partir de palavras-chave), entre outros aspectos. Consequentemente, dentro do mercado da informação, ser um escritor poderoso poderá corresponder, muito simplesmente, a obter uma boa pontuação em tais indicadores” (Lankshear & Knobel, 2006: 105 e 106). Os autores citam ainda três ideias chave do trabalho de Shirky: “é relativamente mais difícil para os que chegam mais tarde do que para os que chegaram mais cedo tornar-se ‘estrelas’” (…); “há certamente blogues meritórios e talentosos que não conseguem atingir o tráfego das “estrelas”; e os blogues de “topo” e da “cauda” acabam por tornar-se radicalmente diferentes, perdendo os primeiros a capacidade de interagir com a sua audiência, dada a quantidade de tráfego gerada, tornando-se assim “difusores” do tipo media mainstream.

A este respeito é interessante comparar, por exemplo, o mapa recentemente produzido colaborativamente por Klavans, Boyack e Paley (comissionado inicialmente por Katy Börner da Universidade de Indiana para a exposição Places & Spaces: Mapping Science do New York Hall of Science, 2006/2007 e construído com base em 800.000 documentos científicos publicados, distribuídos em 776 paradigmas científicos e ligados entre si com base na frequência de citação mútua) e os mapas da Internet apresentados por, entre outros, Matthew Hurst (Senior Research Scientist at Intelliseek), Lada Adamic, ou Marc Smith (research sociologist at Microsoft Research) – na conferência ” The Hyperlinked Society“, ocorrida a 9 de Junho de 2006 na Universidade da Pensilvânia – cujas investigações continuam em curso e permitem já perceber, por exemplo, diferentes padrões de comportamento e influência na blogosfera em função dos temas abordados, nomeadamente quando políticos ou tecnológicos, ou ainda, a dinâmica das comunidades on-line.

Mapa

Fig. 1 – Mapa produzido por Kevin Boyack, Dick Klavans e Bradford Paley, comissionado por Katy Börner da Universidade de Indiana para a exposição “Places & Spaces: Mapping Science” do New York Hall of Science, 2006/2007. Formulado com base em 800.000 documentos científicos publicados, distribuídos em 776 paradigmas científicos e ligados entre si com base na frequência de citação mútua. Clique sobre a imagem para ver em maior dimensão.

Mapa apresentado por Matthew Hurst

Fig. 2 – Mapa apresentado por Matthew Hurst (Senior Research Scientist at Intelliseek) na conferência “The Hyperlinked Society”, ocorrida a 9 de Junho de 2006 na Universidade da Pensilvânia, permitindo observar padrões de comportamento e influência na blogosfera.

Os mapas permitem inferir duas coisas: que as leis que governam a afirmação do discurso no espaço web não são substancialmente diferentes das que governam a afirmação do conhecimento no meio académico; e que nem todos os tipos de blogues se comportam da mesma forma ou obedecem da mesma maneira às leis de “mercado”. Por exemplo, no segundo mapa, o ponto laranja corresponde a um blogue dedicado a temas tecnológicos, constituindo-se com uma referência notável para os restantes. Já a mancha densa e escura situada mais abaixo e à direita corresponde a uma área de discussão sócio-política. Aí a influência dispersa-se e, havendo alguns blogues que se destacam, não deixa de existir uma importante generalização da discussão.

As experiências de mapeamento e consequentes leituras interpretativas, relativas ao espaço web, ainda estão nos seus primórdios. Em consequência, será ainda cedo para avaliar as condições oferecidas por este meio para a afirmação democrática da expressão individual. No entanto, as primeiras leituras parecem justificar algum optimismo, conquanto se possa garantir a independência do meio em relação aos poderes instituídos, quaisquer que sejam.

Referências:

  • Lankshear, C. & Knobel, M (2006). Mundos Weblog e Construções de uma Escrita Eficiente e Poderosa: Atravessar com cuidado e apenas onde os sinais o permitam. In J. Paraskeva & L. Oliveira (Org.), Currículo e tecnologia educativa. Mangualde: Edições Pedago, (pp. 97 a 121).

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