Blogues & Tecnologia Educativa 08 Jul 2007 10:54 pm

A escrita eficiente

Continuando a análise do estudo de Colin Lankshear e Michele Knobel – “Mundos Weblog e Construções de uma Escrita Eficiente e Poderosa: Atravessar com cuidado e apenas onde os sinais o permitam” (Lankshear & Knobel, 2006). – análise que iniciei na entrada anterior deste blogue, será interessante referir algumas das críticas apontadas por estes autores à utilização dos blogues em ambiente escolar, bem como algumas das estratégias propostas para a superação desses mesmos problemas.

“Os blogues escolares que observámos em sites como o serviço de alojamento Schoolblogs.com facultam poucas evidências de que alunos e professores trabalham a partir de uma base de propósito autêntico. Muitos posts de alunos para blogues apoiados pelas escolas parecem mais tarefas obrigatórias e/ou textos associados às notas dos alunos do que artefactos advindos de um interesse intrínseco. Ausente da vasta maioria dos blogues escolares está a presença de espírito de posts encontrados noutros locais, bem como os comentários escritos que com frequência aqueles atraem por parte dos leitores (na verdade muitos blogues escolares nem sequer têm a função dos comentários activada). Em muitos casos, a natureza e qualidade da escrita postada nos blogues escolares convidam a uma resposta do tipo ‘porquê dar-me ao trabalho?’ Muito simplesmente, é frequentemente difícil descobrir o porquê de uma dada pessoa se dar ao trabalho de construir um blogue de modo a registar o tipo de conteúdo postado.”

(Lankshear & Knobel, 2006: 116 e 117)


Lankshear e Knobel continuam referindo que “por norma, há poucas evidências de desenvolvimento de ideias nos blogues escolares” (…) e que “um número significativo de blogues escolares é operado apenas por professores e funciona como uma espécie de interface ‘escola-casa’ com os conteúdos em curso para que os alunos (e os seus pais) se mantenham a par das datas para entrega de trabalhos e critérios de avaliação, páginas dos manuais que devem ser lidas, e recursos on-line recomendados pelo professor” (Lankshear & Knobel, 2006: 117 e 118).

Para se contornar estes e outros problemas, no sentido do encorajamento das qualidades de uma “escrita eficiente”, os autores sugerem a criação “ de condições no seio das quais espaços de afinidade genuínos possam emergir e ser apoiados” (Lankshear & Knobel, 2006: 119). Concretamente sugerem dois tipos de medidas, consoante o grau de estruturação da abordagem pretendida:

  1. “..dar aos alunos uma liberdade de acção ampla para escreverem sobre os seus interesses como uma forma de criar espaços, em contexto de sala de aula, para que as afinidades desempenhem um papel.” Lankshear e Knobel criticam a vacuidade de exercícios de “’escrita livre’” como “’Acordas e descobres que tens 7 cm. de altura. Descreve o teu dia’” ou “’És uma flor. Explica que tipo de flor és e porquê’”. Sugerem que se dê aos alunos o tempo necessário para “explorarem a blogosfera e outros ciberespaços de modo a descobrirem (exemplos de) onde querem estar” (Lankshear & Knobel, 2006: 119), no fundo realçando que nos blogues, como em qualquer outra estratégia pedagógica, o que importa é promover a apropriação individual do meio e dos conteúdos, como decorre das modernas correntes construtivistas da aprendizagem.
  2. “Onde são requeridas abordagens mais estruturadas, a ênfase poderá ser menos na busca livre de afinidades e mais em oportunidades guiadas e semi-estruturadas de experienciar e emular a perícia. Isto poderá ser feito, por exemplo, pondo os alunos a procurar e explorar uma série de blogues dedicados a notícias de modo a identificar múltiplas perspectivas sobre uma da história ou um dado acontecimento, e trabalhar no sentido de postar posições que partam deles mesmos” (Lankshear & Knobel, 2006: 119 e 120). Recordam também que o blogar não tem necessariamente de ser realizado em blogue próprio e que este tipo de exercício pode também ser desenvolvido com vantagem pela postagem de comentários em blogues alheios, exercitando assim “a eficácia da sua escrita”. Em alternativa sugerem ainda a possibilidade de se implementar com os alunos formas de trabalho colaborativo, por exemplo “no sentido de traçar o desenvolvimento de um crítica aos media que circulam na blogosfera”(Lankshear & Knobel, 2006:120).

As observações e recomendações de Lankshear e Knobel são, como se vê, absolutamente pertinentes também no contexto português. A articulação destas recomendações com as três características chave que estes autores identificam, no mesmo artigo, como conducentes à eficiência de um qualquer blogue, escolar ou não, poderá constituir um contributo suplementar para o sucesso da implementação dos blogues em ambiente escolar. São as seguintes, essas três características:

  1. “…uma forte e clara noção de propósito para o blogue” (Lankshear & Knobel, 2006: 113). Sem ela, Lankshear e Knobel consideram, com razão, que as probabilidades se sobrevivência do blogue “às exigências em termos de tempo, energia e engenho implicadas na [respectiva] manutenção” são reduzidas, pois a motivação dificilmente será suficiente para as sustentar.
  2. “… ter um ponto de vista reconhecível e bem informado” (Lankshear & Knobel, 2006: 114). Sendo os blogues, antes de mais, expressão das opiniões e sentimentos dos seus autores, a ausência de ponto de vista discernível é, salientam, “uma contradição semântica”. Também na escola, deverão os alunos ter oportunidade de desenvolverem os sentidos de propriedade e de autoridade sobre os temas a que se dedicam, como também destacam Ferdig e Trammell: “1. O uso de blogues ajuda os estudantes a tornarem-se especialistas nas suas áreas de escolha” (…) “2. O uso de blogues promove o interesse na aprendizagem e a sua apropriação por parte do estudante” (…) “3. O uso de blogues faculta aos estudantes legítimas oportunidades de participação” (…) “4. O uso de blogues fornece oportunidades para a diversidade de perspectivas, dentro e fora da sala de aula” (Ferdig & Trammell, 2004) *.
  3. “… qualidade de apresentação” (Lankshear & Knobel, 2006: 115). Sobriedade, limpeza, clareza na escrita, utilização e identificação de recursos existentes (através de hiperligações, em vez de repetir o conteúdo de terceiros), navegabilidade, usabilidade, acessibilidade, universalidade, são cuidados essenciais para qualquer blogue. Lankshear e Knobel referem a conveniência de se evitar sobrecarregar a largura de banda com elementos desnecessários, como elementos audiovisuais, algo que tende cada vez mais a ser ignorado e contribui para uma nova forma de exclusão.

* Tradução minha.

Referências:

  • Lankshear, C. & Knobel, M (2006). Mundos Weblog e Construções de uma Escrita Eficiente e Poderosa: Atravessar com cuidado e apenas onde os sinais o permitam. In J. Paraskeva & L. Oliveira (Org.), Currículo e tecnologia educativa. Mangualde: Edições Pedago, (pp. 97 a 121).
  • Ferdig, Richard E. & Trammell, Kaye D. (2006). Content Delivery in the ‘Blogosphere’, in T.H.E. Journal, Fevereiro de 2004. (consultado a 07 de Julho de 2007).

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